sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Décimo Segundo capítulo


12

Após uma cansativa aula de Química, Rodrigo perguntou a Miriam quando já se aproximavam do portão de saída:
__Você tem algum compromisso para hoje à tarde?
__Não, não tenho nada, por quê?
__Porque eu queria te convidar pra ir ao cinema comigo.
__Queria? Não quer mais? – perguntou Miriam rindo tentando assim disfarçar o rubor que atingia suas faces. Rodrigo sorriu mostrando suas covinhas e disse:
__Claro que quero! Você não imagina como eu quero te levar ao cinema hoje à tarde.
Miriam passou as mãos pelo cabelo sem saber o que dizer. Muitos alunos e professores também estavam saindo naquele momento, Miriam se afastou um pouco mais para que os professores Paulo e Arthur passassem entre eles. Todos falavam ao mesmo tempo fazendo com que Rodrigo tivesse que perguntar em um tom de voz mais alto:
__Que horas eu posso passar na sua casa pra te buscar?
__Pode ser às três. - Respondeu Miriam rapidamente no mesmo tom de voz dele.
__Certo, então até as três.
Rodrigo aproximou um pouco mais o rosto do dela e Miriam imaginou que ele lhe daria um beijo na face como fazia todos os dias antes de ir embora, mas para sua surpresa, os lábios dele procuraram os seus.
Foi um beijo suave e carinhoso, mas antes que Miriam pudesse abraçá-lo, ele se afastou dizendo:
__Até as três, Mi!
Miriam tentou falar, mas não conseguiu. Sua voz parecia presa na garganta. O beijo de Rodrigo era melhor do que ela esperava, muito melhor do que os que ele lhe dava em seus sonhos.
Feliz, ela levou a mão aos lábios e virou-se para ir para casa quando seus olhos encontraram os de Bruno.
Ele estava encostado em sua moto, provavelmente esperando Érica que junto com Carla e Bianca tentava convencer a professora de História em lhes dar uma nota maior pela pesquisa que haviam feito.
Miriam não entendeu o porquê de ele olhá-la tão seriamente como se estivesse furioso. Teria ele não gostado de vê-la beijando Rodrigo?
Miriam preferiu não pensar nisso, não se importava mais com o que Bruno pensava e por isso desviou o olhar encontrando no barzinho à frente Cláudio e ao lado dele um homem mais alto que estava de costas, mas que se virou rapidamente permitindo que Miriam visse seu rosto.
Era André, seu vizinho.
Desde o dia em que ele havia agredido a própria irmã que Miriam não o tinha visto mais. Paloma havia dito para sua mãe que não sabia por onde ele andava e que desde aquele dia que ele não aparecia em casa nem para dormir. E agora ele estava ali na sua frente parecendo calmo enquanto segurava uma latinha de cerveja.
Miriam desejou que eles não a tivessem visto, mas Cláudio fez animadamente um gesto com a mão chamando-a para se aproximar deles.
Mesmo a contragosto, Miriam se dirigiu até onde eles estavam e Cláudio disse:
__Oi, Miriam! Tudo bem? Eu quero que você conheça o meu primo.
Primo?! Por essa Miriam não esperava, o mundo era muito pequeno mesmo. André sorriu e disse:
__ Eu já a conheço, primo. Ela é a minha vizinha.
Cláudio olhou de André para Miriam e também sorrindo disse:
__Que legal! Não sabia que você morava na Rua das Esmeraldas, Miriam.
__É, moro. - falou Miriam incomodada com o olhar de André. Por que ele a olhava como se quisesse enxergar sua alma?
__Você tem medo de mim, não tem? - Perguntou André ficando sério de repente.
__Não, de modo algum. Claro, que não! - Respondeu Miriam rapidamente torcendo para parecer o mais sincera possível.
__Tem sim, claro que tem! Eu assustei você naquele dia quando apareci na sua janela. Lembro perfeitamente da sua cara de horror quando me viu.
Miriam ficou sem saber o que dizer, foi Cláudio que rindo disse:
__Ah, eu queria ter visto essa cena. Quem você achou que ele fosse? Algum psicopata ou algum monstro?
__Não existe nenhuma diferença entre um psicopata e um monstro. - Disse Miriam asperamente se arrependendo em seguida ao ver Cláudio parar de rir e passar a olhá-la do mesmo modo que André.
Querendo sair dali, ela disse:
__Eu tenho que ir agora. Minha mãe já está me esperando para almoçar.
__Também estou indo para casa agora. Quer uma carona? - Perguntou André e rapidamente Miriam respondeu:
__Não, obrigada. Eu acabei de lembrar que antes tenho que passar no supermercado para comprar algumas coisas que minha mãe pediu.
André riu e disse:
__Tudo bem, então!
Miriam sentiu que ficava vermelha. Ela não sabia mentir e era óbvio que André tinha notado isso.
O som do tapa que ele deu na irmã ecoou em seus ouvidos fazendo com que ela dissesse rapidamente:
__Tenho que ir agora. Tchau!
Ela se afastou deles sentindo que ainda a observavam e não pôde evitar que isso a deixasse amedrontada.
“Não há motivos para ter medo, Miriam” ela disse para sim mesma.
“Maldito beijo! Ele não tinha o direito de beijá-la. Ela não devia ter deixado, mas eu posso perdoá-la, afinal ela não sabe que pertence a mim. Ela não sabe do nosso amor. Eu errei ao parar com as ligações depois do bilhete que deixei embaixo de sua porta. Fiz isso porque sabia que tinha que falar com ela pessoalmente, contar tudo, só precisava esperar o momento certo. Mas agora eu não posso esperar mais. Tenho que falar com ela do nosso amor e vai ser hoje mesmo, mas antes eu tenho que me livrar desse idiota que a beijou.” ele pensou fechando as mãos com força para tentar controlar o ódio que estava sentindo e poder pôr o seu plano em ação.

Décimo primeiro capítulo


11

Assim que Miriam chegou à escola, Amanda veio em sua direção e extremamente séria disse:
__Me disseram que o Cláudio veio aqui na escola ontem e que vocês ficaram conversando. Isso é verdade?
__É, quer dizer, eu disse a ele que você já tinha ido embora e ele disse que só tinha vindo buscar um livro emprestado na biblioteca. – Miriam preferiu não dizer que achava que ele estava mentindo.
__Só foi isso que vocês falaram? – perguntou Amanda e o tom de desconfiança em sua voz irritou Miriam que disse:
__Só foi isso sim, Amanda. Agora será que você pode me dizer o porquê de estar falando e me olhando desse jeito?
O sinal tocou avisando que era hora de entrarem para a primeira aula e Amanda disse:
__Eu vou para casa. Não vou conseguir prestar atenção na aula hoje, estou com muita dor de cabeça.
__Espera, Amanda. Você não respondeu a minha pergunta! – Disse Miriam, mas Amanda fingiu não ouvir e foi embora.
__O que deu nela? - Perguntou uma voz atrás de Miriam.
Era Rodrigo.
__Ela não estava se sentindo bem e foi para casa.
__Entendi. Então, será que eu posso sentar ao seu lado hoje?
__Claro! - Respondeu Miriam sorrindo.
Ela e Rodrigo se conheciam desde os oito anos, mas nunca foram amigos. O máximo que diziam um para o outro era um oi e um tchau, mas Miriam havia gostado do jeito que ele a havia defendido da acusação de Érica na aula de Matemática.
“Talvez nós possamos nos tornar amigos. Amanda está estranha demais para que eu possa contar com ela. Justamente quando eu mais preciso dela para conversar e falar dos meus temores, ela me deixa na mão.” pensou Miriam enquanto junto com Rodrigo entrava na sala de aula.
Miriam não conseguia prestar atenção no que a professora de Português dizia. Ela só tinha olhos para Rodrigo. Ele era engraçado sem ser ridículo, o que o diferenciava dos outros rapazes da turma, além de possuir belos olhos cor de mel e charmosas covinhas que apareciam sempre que ele sorria. Onde ela estava que não tinha visto isso antes?
Quando a última aula acabou, Rodrigo e Miriam se dirigiram para a saída e Rodrigo disse:
__Gostei de ter sentado com você hoje, nós podemos repetir a dose amanhã caso a Amanda resolva não assistir aula de novo.
Miriam sentiu vontade de dizer que mesmo que Amanda aparecesse, ela iria preferir sentar com ele, mas ligeiramente vermelha, se limitou a dizer:
__ Eu vou adorar.
Um grande sorriso surgiu no rosto de Rodrigo e ele deu um beijo no rosto de Miriam antes de ir esperar o ônibus que o levaria para casa.
Miriam levou a mão ao local do beijo sentindo sua pele queimar, depois percebendo que parada ali estava atrapalhando a saída das pessoas, ela começou a andar rumo a sua casa e pela primeira vez, não se importou ao ver Bruno chegar de moto para buscar Érica.
Nos dias que se seguiram, Amanda assistiu às aulas e sentou ao lado de Miriam, mas continuava agindo estranhamente como se estivesse ao mesmo tempo magoada e furiosa com algo que Miriam não tinha idéia do que poderia ser já que ela nada dizia.
O jeito era esperar até que ela resolvesse se abrir e dizer o que a atormentava. Pelo menos enquanto esperava por isso, Miriam tinha a companhia de Rodrigo que estava sempre sentado a sua frente e sempre virava para trás para fazer algum comentário engraçado que a fizesse sorrir ou simplesmente para olhá-la nos olhos durante alguns segundos.
Com todo aquele carinho e atenção, Miriam não se surpreendeu ao descobrir que estava se apaixonando por ele.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Décimo capítulo


10
Quem está fazendo isso comigo? Quem? Só pode ser alguém que me detesta e está querendo me assustar.
O nome de Érica logo lhe veio à mente.
Ela sabia que Érica tinha um irmão e que poderia ter pedido a ele para fazer as ligações. O número de seu telefone ela poderia ter pegado com Bruno ou com Bianca. Sim, era mais provável que Bianca tivesse dado o número e só poderia ter sido Bianca a colocar a carta embaixo de sua porta, afinal Bianca morava na mesma rua que ela.
“Bianca... e pensar que já fomos amigas. Crescemos juntas! Mas agora tudo faz sentido... Bianca viu Bruno vir aqui no sábado e contou para Érica por isso que Érica resolveu me enviar essa carta além das ligações.”
__Ah, mas eu vou acabar com isso agora mesmo! – disse Miriam saindo do quarto e dizendo para a mãe que iria até a casa de Bianca.
__Bianca? Mas eu achei que vocês não estavam mais se falando.
__E não estamos, mas é um assunto muito importante!
__Que assunto importante?
__É um assunto da matéria de História - Mentiu Miriam saindo rapidamente antes que a mãe lhe fizesse mais perguntas.
Bianca estava no terraço de sua casa quando viu Miriam se aproximar e gritar para ela:
__Bianca, eu preciso falar com você agora! É urgente!
Bianca olhou-a surpresa, mas mesmo assim desceu as escadas correndo e abriu o portão perguntando:
__ Aconteceu alguma coisa, Miriam?
__Aconteceu isto! - Respondeu Miriam mostrando a carta que recebera.
__O que é isto? Eu não entendi nada. - Disse Bianca após ler as três frases da carta.
__Não se faça de sonsa! Eu sei muito bem que foi você quem deixou essa carta embaixo da minha porta a pedido da Érica.
__O quê??! Da onde você tirou essa idéia? Eu jamais faria isso!
Miriam, que já esperava que ela negasse tudo, disse:
__Quem fez isso é alguém que não gosta de mim. Alguém que está querendo me assustar. Érica se enquadra nesse perfil e você como amiga dela com certeza a está ajudando a fazer isso! Primeiro você deu o meu telefone para ela, depois contou sobre a visita do Bruno e agora deixou essa carta embaixo da minha porta!
__De tudo o que você acabou de me acusar, a única coisa que eu fiz foi falar sobre a visita do Bruno e não foi para te arranjar problemas, minha intenção era apenas tirar um pouco da autoconfiança da Érica. Ela não cansa de dizer que o Bruno é apaixonado por ela e que jamais a trairia. Achei divertido vê-la com a pulga atrás da orelha. Mas me arrependi depois que a vi te perturbando na escola. Peço desculpas por isso, mas só por isso!
Miriam ficou desconcertada. Bianca parecia estar falando a verdade. Houve um instante de silêncio que logo foi quebrado por Bianca que disse:
__Érica também não tem nada a ver com isso.
__Como pode ter tanta certeza?
__Érica é do tipo de pessoa que conta tudo o que faz e até mesmo o que não faz. Ela adora falar sobre ela mesma. Por isso se ela resolvesse te pregar uma peça desse tipo ela teria dito.
Miriam voltou a olhar para a carta. Se pelo menos ela tivesse sido escrita à mão, ela poderia tentar descobrir o responsável pela brincadeira através da letra, mas a carta tinha sido digitada.
“Droga de mundo informatizado!” pensou.
Bianca pareceu ler os pensamentos dela porque disse:
__Vai ser difícil você descobrir quem foi. Qualquer pessoa poderia ter digitado e impresso essas três frases. Acho que você não deveria se incomodar tanto com isso. É só uma brincadeira, de mau gosto, mas é só uma brincadeira.
__Espero que você tenha razão. Bem, eu tenho que ir agora. Me desculpe pelas as acusações injustas.
__Tudo bem, no seu lugar eu também acharia a mesma coisa.
Miriam dobrou a carta e colocando-a no bolso voltou para casa sentindo-se pior do que antes. No fundo ela preferia que fosse realmente uma brincadeira de Érica. Pelo menos não estaria como agora sentindo medo de uma pessoa sem rosto que além de ligar para sua casa também havia deixado um bilhete tão sinistro quanto seus telefonemas. Por que aquela obsessão com o frio? Por quê?
Miriam olhava para o telefone achando que a qualquer momento ele iria tocar novamente e ela iria ouvir a misteriosa voz perguntando se ela estava com frio.
Pensar nisso a fez estremecer e sem conseguir comer, ela recusou o jantar e foi para a cama mais cedo.
Em seus sonhos, o telefone tocou várias vezes e em cada vez que tocava ela sentia mais frio... cada vez mais... até sentir que morreria congelada se não despertasse logo.

Nono capítulo


9
__Ai, mãe que bom que a senhora chegou! - Disse Miriam assim que sua mãe entrou na sala.
__Nossa, Por que essa cara de desespero filha? Eu nem demorei muito no dentista.
__É que a senhora não sabe o que eu vi.
E Miriam contou o que tinha acontecido com os novos vizinhos deixando a mãe revoltada:
__Que covarde! Eu o vi hoje cedo antes de ir para o dentista, ele me cumprimentou muito sorridente e eu até o achei bem simpático. Aquele covarde! Ah, se eu estivesse aqui ele iria ver o que eu iria fazer com ele.
__Mãe, não podemos nos meter! Ele é violento!
__Ele é um covarde isso sim, mas você tem razão não podemos fazer nada contra ele, mas eu posso pelo menos ir falar com ela, ver se ela esta bem.
__Mas, mãe, ela fechou a janela na minha cara, não quis conversa. Acho que se a senhora for lá ela vai bater com a porta na sua cara.
__Talvez, mas eu me sinto na obrigação de pelo menos oferecer uma palavra de conforto. Ele saiu, não saiu?
__Sim, ele saiu de carro e ainda não voltou.
__Ótimo, vou lá agora. Quer vir comigo?
Miriam pensou um pouco, mas acabou decidindo por acompanhar a mãe mesmo achando que não estava fazendo a coisa certa.
Só após tocarem a campainha pela terceira vez que a porta foi aberta um pouco, sendo possível ver apenas metade do rosto da mulher que perguntou:
__O que desejam?
__Queremos falar com você, querida. Não tenha vergonha ou medo. Só queremos oferecer nosso ombro amigo, afinal somos vizinhas.
Miriam achou que a mulher iria fechar a porta, mas para a sua surpresa, ela a abriu mais, as convidando a entrar.
__Eu sou Mariana e essa é minha filha, Miriam. Como você se chama?
__Paloma.
__Muito prazer, Paloma. Bem, como já disse antes, minha filha e eu estamos aqui para oferecer nosso ombro amigo. E depois do que aconteceu hoje, eu creio que é do que você está precisando.
Os olhos de Paloma ficaram marejados de lágrimas e com a voz trêmula ela disse:
__Meu irmão e eu estamos passando por uma fase muito difícil. Há dois anos nossos pais sofreram um acidente de carro. Papai faleceu na hora, mas mamãe está no hospital, o estado dela é muito grave. Os médicos dizem que se ela sobreviver ficará com muitas seqüelas.
Penalizadas, Miriam e a mãe não encontravam palavras para dizer o quanto lamentavam o que havia acontecido e após um instante em silêncio, Paloma disse:
__Depois disso meu irmão largou a faculdade de Direito e começou a beber muito, eu também troquei de escola. Saí de uma particular para uma pública e consegui um emprego como garçonete. Vendi nossa antiga casa, não queria, mas não tinha outro jeito. Ofereceram um bom dinheiro por ela e eu não estava em condições de negar.
__Entendo. - Murmurou D. Mariana
__Foi minha tia quem me ajudou a encontrar essa casa. Ela e eu pedimos para André vender o carro, mas ele se recusou. Pedimos então para que ele arrumasse um emprego, mas ele também se recusou. Ele quase não pára em casa, eu nunca sei onde ele está. Hoje é meu dia de folga na lanchonete e por isso ao vê-lo sentado no sofá vendo televisão, rindo do que via como se tudo estivesse bem, eu me descontrolei e comecei a gritar com ele e ele, bem, ele se descontrolou mais do que eu.
D.Mariana abraçou Paloma e disse:
__Pelo o que vejo seu irmão está sofrendo muito com o que aconteceu. E por isso está bebendo tanto. É o modo que ele encontra de esquecer por alguns instantes a sua dor. Mas isso não dá a ele o direito de te bater nem de viver as suas custas.
__Nós nos dávamos muito bem antes do acidente. Mas agora eu confesso que tenho medo dele, olho para ele e não o reconheço mais. Ele só tem vinte e quatro anos, mas aparenta ser muito mais velho. A bebida está acabando com ele fisicamente e psicologicamente.
__Ele irá precisar de uma ajuda profissional, você sabe disso, não sabe? - Perguntou D.Mariana
__Sei, eu acabei de ligar para minha tia e contei o que aconteceu. Ela me disse a mesma coisa. O difícil será convencer o meu irmão disso.
D.Mariana olhou para Paloma de um modo maternal e disse:
__ Se precisar de ajuda é só chamar. E se precisar apenas de alguém para conversar também pode chamar.
Paloma sorriu e agradeceu. Miriam e a mãe voltaram para casa.
__Quando você me contou o que havia acontecido, eu imaginei que era uma briga de marido e mulher.
__É, eu também! Não pensei que fossem irmãos. - Disse Miriam lembrando do rosto de André e acrescentando em seguida: __ Eu também pensei que ele fosse mais velho.
__Eu também. Paloma tem razão, o vício está acabando com ele. Espero que ele aceite receber ajuda profissional e tome jeito.
__Eu também – disse Miriam com sinceridade.
Tudo o que Paloma havia dito tinha mexido muito com ela. Vendo o quanto Paloma e André estavam sofrendo a fez ver que não tinha problema nenhum. Não tinha nenhum motivo para sofrer realmente. Depois do que tinha acabado de ouvir, o seu amor não correspondido por Bruno, os ciúmes que sentia ao vê-lo com Érica, o comportamento um tanto distante de Amanda, tudo isso perdeu metade da importância que ela estava dando minutos antes de entrar naquela casa.
__Veja, filha, uma carta aqui embaixo da porta. - Disse D.Mariana pegando o envelope e o entregando a Miriam dizendo: __É para você!
Miriam olhou o envelope a procura do nome de quem havia enviado, mas não havia remetente.
Curiosa, ela o abriu rapidamente sentindo que empalidecia ao ler:

Você está com frio?
Eu estou com muito frio agora.
Eu sempre estou com muito frio.
“Ele sabe quem eu sou! Ele sabe onde eu moro!” pensou Miriam tomada pelo pânico.
Para não preocupar a mãe, Miriam disse que a carta era de Bruno pedindo para que eles voltassem a ser amigos.
__Ele está pedindo isso de novo? Mas que rapaz insistente! Diga a ele para ser amigo da namorada dele.
__Vou fazer isso. - Murmurou Miriam subindo para o quarto e se jogando na cama ainda com a carta nas mãos.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Oitavo capítulo


8
Horas depois, Miriam se encontrava deitada na cama fazendo os seus exercícios de História quando começou a ouvir vozes que vinham da casa ao lado.
__Você é um irresponsável, André! É isso o que você é! - Gritou uma voz feminina fazendo com que Miriam fechasse o caderno e apurasse os ouvidos a fim de ouvir melhor a conversa.
__Você sabe que estamos passando por dificuldades financeiras e só quer saber de se divertir! Quando é que você vai se tornar um homem? – continuou a voz feminina aos gritos e um som de um tapa se fez ouvir logo em seguida.
Miriam levantou da cama e correu para a janela de onde pode ver uma mulher caída no chão e o seu novo vizinho em pé dizendo em um tom de voz furioso:
__Isso é para você aprender a cuidar da sua própria vida!
Com uma mão sobre o rosto, a mulher soluçou alto enquanto o homem saía batendo a porta atrás de si com força.
Apesar de saber que não devia estar espiando a vida dos vizinhos como estava fazendo, Miriam não se moveu. Estava horrorizada demais para fazer isso.
Só após um barulho de carro partindo a toda velocidade ser ouvido que a mulher, com certa dificuldade, se levantou e logo seus olhos encontraram os de Miriam que embaraçada por ter sido descoberta ali não sabia o que dizer.
Foi a mulher quem falou:
__Você viu o que ele fez?
__Sim – confessou Miriam acrescentando – E eu sinto muito.
A mulher se aproximou mais da janela e antes de fechá-la, disse, dando um sorriso triste:
__Não sinta. Isso não ajuda em nada.
Miriam ficou olhando para a janela fechada sem saber o que pensar. Sentia pena da mulher e muita raiva do homem. Queria logo que seus pais chegassem para que ela pudesse dizer o que tinha acontecido. Eles tinham que saber que o novo vizinho era um monstro.
O telefone tocou tirando-a de seus pensamentos. Ao atender ela ouviu uma voz de homem dizer:
__Eu estou com muito frio! Preciso de você para me aquecer! Só você pode fazer isso!
__Quem é que está falando? - perguntou Miriam em um misto de irritação e surpresa
__Por favor, me aqueça! – Pediu a voz desligando em seguida.
Miriam ficou com o telefone na mão. Sem saber o que pensar. Por que esse homem ficava ligando para ela? E por que dizia essas coisas?

Sexto e sétimo capítulos


6
Não demorou muito para a segunda feira chegar e logo Miriam já estava indo para a escola. Assim que chegou, ela olhou em volta procurando por Amanda e a encontrou sentada embaixo de uma árvore.
__Oi, Manda.- Ela disse enquanto sentava ao lado dela
__Ah, oi.
__Manda, o que tá acontecendo com você? Você tava super estranha no sábado quando fomos ao cinema, mal falou comigo. E ontem eu liguei pra você o dia inteiro e sua mãe sempre dizia que você tinha ido à rua comprar alguma coisa, aí eu ligava pro seu celular, mas ele estava sempre desligado.
__É, meu celular é horrível. Não funciona direito, vou comprar outro. Você deveria comprar um pra você também.
Miriam percebeu que ela estava fugindo do assunto, mas antes que pudesse dizer algo o sinal tocou avisando que a aula iria começar.
Amanda levantou-se rapidamente e saiu andando. Sem entender o porquê de a amiga estar agindo tão estranhamente, Miriam fez o mesmo, mas antes de chegar até o portão de entrada sentiu alguém segurar seu braço fortemente.
Ela virou-se e viu que era Érica quem a estava segurando.
__Nós precisamos conversar! - Disse Érica fuzilando-a com os olhos.
__Sobre? - Perguntou Miriam puxando o braço bruscamente e olhando-a da mesma forma.
__Eu quero saber o que o meu namorado foi fazer na sua casa no sábado!
__Pergunte a ele. - Respondeu Miriam dando-lhe as costas, mas Érica segurou-lhe o braço novamente e disse:
__Já fiz isso, mas agora quero ouvir o seu lado da história.
Miriam suspirou fundo e disse:
__Bruno foi me dizer para mantermos a nossa amizade. Ele disse que sente falta de mim como amiga e que é apaixonado por você. Agora solta o meu braço.
Érica abriu um sorriso triunfante e largou o braço de Miriam dizendo em seguida:
__Mas você não quer só a amizade dele, não é Miriam?
__O que eu quero é problema meu. Mas já que está tão interessada, eu dispensei a amizade do seu namorado porque nem isso eu quero mais dele.
Érica manteve o mesmo sorriso de triunfo no rosto enquanto Miriam lhe dava as costas.
__O que houve? Por que demorou tanto para entrar? - Perguntou Amanda assim que Miriam sentou ao lado dela na sala.
__Estava conversando com a Érica.
__Com a Érica? - Estranhou Amanda e Miriam disse:
__É que ela soube que o Bruno esteve lá em casa no sábado.
__O Bruno esteve na sua casa no sábado? Por que não me contou isso?
__Porque você não me deu oportunidade. Esqueceu do quanto estava estranha no sábado à noite e de que não atendeu nenhuma das minhas ligações ontem? - Respondeu Miriam asperamente em um tom de voz mais alto, fazendo com que Marta, a professora de História, dissesse:
__Miriam e Amanda! Silêncio, por favor!
Miriam e Amanda calaram-se e fixaram o olhar no quadro negro à frente. Alguns minutos depois Érica entrou na sala acompanhada de suas duas amigas inseparáveis, Bianca e Carla.
As três se desculparam pelo atraso, mas Marta que já estava acostumada com isso as ignorou por completo.
Érica e Carla foram para o fundo da sala onde sempre sentavam sem olhar para ninguém. Bianca as seguiu, mas ao passar por Miriam a olhou tristemente e Miriam não teve dúvidas de que tinha sido ela quem havia dito para Érica sobre a visita de Bruno.
“Idiota!” pensou Miriam olhando-a com desprezo por segundos antes de virar a cara.
7

A última aula daquela manhã foi de Matemática. Quando Paulo entrou na sala algumas alunas suspiraram, fazendo com que Miriam lembrasse das palavras da mãe:
“... elas podem começar a vê-lo com outros olhos e vice-versa”.
__Irei dizer agora a nota que cada um de vocês tirou no teste. - Disse Paulo ajeitando melhor os óculos sobre o nariz e dizendo em seguida:
__Amanda Motta tirou nota nove. Parabéns!
Amanda arregalou os olhos, visivelmente surpresa enquanto Paulo continuava dizendo a nota dos outros alunos seguindo os nomes da lista de chamada.
__Érica Bastos tirou nota quatro. Será necessário que você se esforce mais na próxima.
O sorriso estampado no rosto de Érica se desfez, mas percebendo que Miriam a estava olhando, ela disse em voz alta:
__Vou pedir para o meu namorado me dar umas aulas particulares. Ele é ótimo em Matemática, aliás, ele é ótimo em tudo!
Miriam não pôde deixar de lembrar de uma tarde em que Bruno a havia ajudado a fazer algumas equações dando-lhe um beijo cada vez que ela acertava. Mesmo sem querer, ela acabou visualizando ele fazendo isso com Érica.
Para afastar essa imagem da mente, ela fixou o olhar em Paulo que continuava dizendo as notas dos alunos.
__Que nota você acha que tirou? - Perguntou Amanda.
__Não sei, mas ficarei feliz se for uma nota maior do que dois. - Respondeu Miriam esfregando uma mão na outra tentando assim espantar o nervosismo que começava sentir.
__Miriam Campanatti, nota dez. Meus parabéns!
Nota dez? Será que ela tinha ouvido bem? Não era possível! Abobalhada, Miriam sorriu para Paulo enquanto ouvia a voz de Érica dizendo:
__Ela deve ter colado de alguém!
Miriam iria virar para devolver o comentário, mas Rodrigo que sentava a sua frente foi mais rápido e olhando para Érica disse:
__Engraçado, se ela colou de alguém porque ela foi a única da turma que tirou dez?
Érica abriu a boca, mas antes que dissesse algo, Amanda falou:
__Não fique tão preocupada, Érica. De você nós sabemos que ninguém colou afinal você foi a única que tirou quatro.
O rosto de Érica ficou vermelho de raiva. Carla também olhou com raiva para Amanda, mas Bianca fingiu que procurava algo na mochila para que ninguém visse que assim como o resto da turma também estava rindo.


__Quer almoçar lá em casa, Manda? - Convidou Miriam assim que saíram da escola.
__Não, obrigada. Vou direto pra casa. Tô com dor de cabeça.
Miriam ficou vendo Amanda se afastar e lamentou que a amiga tivesse voltado a ficar estranha já que no final da aula ela tinha feito todos rirem e parecia ter voltado ao normal.
__Paciência. - murmurou Miriam dirigindo-se a barraquinha de doce mais próxima para comprar alguns bombons.
__Cuidado para não engordar, Mi! - Disse uma voz atrás de si e virando Miriam viu Cláudio, o namorado de Amanda.
__Oi, Cláudio. Você tá atrasado! A Amanda já foi embora.
__Não vim ver a Amanda. - Disse Cláudio ficando sério e acrescentando em seguida:__Vim só pegar um livro emprestado na biblioteca. Outro dia a gente se fala, tchau.
Tendo a nítida impressão que Cláudio havia mentido, Miriam guardou os chocolates na mochila e pôs se a caminhar.
Era visível que as coisas não estavam bem entre ele e Amanda. Se pelo menos ela pudesse ajudar, mas como se Amanda preferia não falar sobre o assunto?

Quinto Capítulo


5
__O que houve, Manda? - Perguntou Miriam pela terceira vez, mas Amanda ignorou sua pergunta mais uma vez e disse simplesmente:
__Esse filme parece ser muito bom, li a crítica dele. Parece ser assustador.
Percebendo que ela não queria falar sobre Cláudio, Miriam disse:
__Achei que você preferisse ver uma comédia ou um romance. Você nunca gostou muito de filmes de terror.
__Digamos que hoje eu estou a fim de ver cabeças rolando e sangue jorrando para todos os lados. - Murmurou Amanda.
Miriam estranhou o comentário da amiga. Definitivamente, algo de ruim havia acontecido para deixar Amanda tão amargurada.
__Miriam? Amanda? - Chamou uma voz atrás delas e ao virar-se Miriam deparou-se com o seu novo professor de Matemática.
__Oi, Professor, tudo bem? - Disseram Miriam e Amanda juntas
__Tudo, meninas. Mas não estamos na escola, portanto me chamem apenas de Paulo, certo?
__Certo. - respondeu Miriam sorrindo.
Ela havia simpatizado com ele desde o seu primeiro dia de aula. Ele explicava Matemática com calma e paciência e por isso ela estava começando a entender e até mesmo gostar dessa que sempre foi considerada sua matéria mais difícil e odiada.
__É a primeira vez que venho ao cinema nessa cidade. - Disse Paulo ajeitando os óculos sobre o nariz e acrescentando em seguida: __ Eu sempre gostei muito de ir ao cinema.
__Nós também gostamos muito, não é, Manda? - disse Miriam olhando para a amiga que estava com um olhar distante. Provavelmente pensando em Cláudio.
Miriam balançou a mão em frente aos olhos dela dizendo:
__Olá! Tem alguém aí?
__Pára de palhaçada, Miriam. - Disse Amanda asperamente afastando a mão de Miriam de seu rosto e perguntando para Paulo:
__Profess...quer dizer Paulo, aquele teste que fizemos na semana passada, quanto foi que...
__Ah, não! Por favor, não me pergunte nota de teste agora. Eu direi na segunda-feira, mas não há motivo para ficarem preocupadas. Aquele teste foi só para saber o quanto vocês sabem da matéria. Precisava saber exatamente até onde vocês tinham ido com o professor anterior para continuar o trabalho dele da melhor forma possível. Só isso.
__Entendi. - Disse Amanda voltando a ficar pensativa.
Miriam continuou conversando com Paulo e agradeceu mentalmente por ele estar ali porque assim o modo estranho de Amanda agir não iria incomodá-la tanto.
Eram quase onze horas da noite quando Paulo parou o carro em frente à casa de Miriam após terem deixado Amanda em casa.
__Muito obrigada pela carona, Paulo. - Disse Miriam sorrindo.
__Não precisa agradecer. Foi um prazer e além do mais eu não moro longe daqui.
Miriam sorriu novamente e saiu do carro.
__Quem era no carro, filha? - Perguntou sua mãe que estava olhando pela janela.
__Meu professor de Matemática. Amanda e eu encontramos com ele no cinema e ele nos ofereceu carona.
__Ah, sim. Ele pintou os cabelos?
__O que, mãe?
__Os cabelos dele não eram brancos?
__Ah, a senhora está confundindo. Quem tinha cabelos brancos era o professor Bernardo que se aposentou há quase um mês. Esse que me trouxe é o Paulo, ele tem os cabelos castanhos mesmo. Não é tão velho quanto o professor Bernardo. Acho que ele deve ter uns trinta e dois ou trinta e cinco anos no máximo.
__Isso é um perigo!
__Perigo por que, mãe? - Perguntou Miriam achando graça nas palavras dela.
__Porque ele está lidando com garotas de dezesseis e dezessete anos.
__E?
__E que elas podem começar a vê-lo com outros olhos e vice-versa.
__Nada a ver, mãe.
__Espero que não tenha nada a ver mesmo. - Disse D. Mariana ainda olhando pela janela com um ar preocupado. Ainda achando graça na preocupaçãp da mãe, Miriam foi para o quarto.